Contra Santana - Encerrado a 10.03.2005

sexta-feira, julho 09, 2004

É a falta de visão que nos fode...

Após a comunicação do PR ao país fiquei com uma certeza: os meus votos nele em 1996 e 2001 não se desperdiçaram.
Ainda antes de José Barroso ter apresentado a sua demissão, já os analistas políticos e os iluminados cá do burgo se afadigaram em múltiplas interpretações – umas algo revisionistas e outras mais práfrentex – da nossa Constituição; do debate travado e dos argumentos algo histéricos invocados por ambos os lados da barricada resultou para mim uma certeza: a culpa desta vez não é do sistema, mas sim da Assembleia Constituinte.
Não querendo escalpelizar as nossas vicissitudes históricas, tenho como seguro que um dos principais óbices ao desenvolvimento sustentado do país tem sido a falta de visão estratégica a média e, sobretudo, a longo prazo. Como se sabe, a nossa Constituição foi elaborada num circunstancialismo histórico muito definido: o 25 de Abril tinha sido apenas dois anos antes, o 25 de Novembro e o 11 de Março eram recentes, o Verão Quente tinha sido praticamente na véspera e do PREC é melhor nem falar. Mas, tudo isso, não implica que possamos chamar à responsabilidade – hoje mesmo – os mentores da Constituição. Efectivamente, a ideia com que fiquei é que se preocuparam mais em olhar para o seu próprio umbigo em vez de tentarem vislumbrar um horizonte a pelo menos três décadas. Na verdade, mal se compreende que desde 1976 não se tenha acautelado o facto de algum dia o país ter que se confrontar com a demissão de José Barroso e a sucessão dinástica e nepótica de Santana Lopes e, pior do que isso, tentar colocar alguns entraves ao normal processo democrático.
Lembrará a alguém com dois palmos de testa ter na Lei Fundamental um artigo com a redacção do actual 195º? Não é esse um paradigma da forma como o país não pode evoluir sustentadamente? Não seria muito mais simples – logo em 1976 – ter previsto uma norma do seguinte teor?
«Em caso de demissão de um Cherne que presida a um Governo nesta República das Bananas, não se coloca qualquer entrave à continuidade do Governo em funções desde que se observem cumulativamente as seguintes condições:
a) A demissão do Cherne foi motivada pela necessidade de fuga precipitada para um valente tacho em Bruxelas;
b) O partido que esteja no poder tem que designar de imediato um sucessor num conclave restrito realizado à porta fechada e onde estejam presentes apenas os baronetes de pacotilha desse mesmo partido;
c) O sucessor designado terá que ter o apoio incondicional do bacoco do Alberto João Jardim;
d) O sucessor designado terá que assegurar logo tachos para as principais figuras do partido.
e) O sucessor designado terá que ser inconsequente, destituído de bom senso e, se possível, totalmente acéfalo.».
Ora, nada disto foi feito e, como vimos, andámos estas duas últimas semanas apenas dependentes do bom senso do PR, o que, felizmente e mais uma vez, se verificou.
Mas, não se pode deixar de remarcar esta nota de desagrado como reflexo da falta de visão estrutural apontada e que, no nosso caso, tem sido prática dos últimos anos. Valha-nos São Sampaio!!!

2 Comments:

  • http://portugal2004.f2g.net

    By Anonymous Anónimo, at 12:28 da manhã  

  • E não esquecer o ponto f): o sucessor deignado terá de ter uma grave sede de poder e a impossibilidade de aceder ao cargo daquele que agora o está a pôr no poder porque sofre de um caso de grande impopularidade face a outras figuras do mesmo partido... afinal de contas, a motivação tem de servir para alguma coisa!

    By Blogger Prometeu, at 1:42 da manhã  

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