Contra Santana - Encerrado a 10.03.2005

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Competitividade, uma obsessão perigosa*

"Competitividade da economia portuguesa": uma daquelas expressões de uso corrente que, quando procuramos uma definição, se torna escorregadia. O seu significado confunde-se com o de produtividade - sobretudo a produtividade dos sectores exportadores - e com produtividade comparada com outros países (razão pela qual o uso da palavra não tem qualquer sentido, por exemplo, para a economia europeia - competitividade passa a ser sinónimo de taxa de câmbio do euro).
A obsessão com a competitividade leva a pensar que o bem estar de um país depende essencialmente da produtividade nestes sectores exportadores, e não nos outros - o que é, pura e simplesmente, errado.
Vem isto a propósito desta notícia do público, sobre as falhas de segurança nas empresas de construção civil. Para justificar a preocupação, também aqui teve se que invocar a sacrossanta competitividade (os equipamentos melhores podem ser "deslocalizados"). Gaita, o problema da falta de segurança é que morre gente nas obras - e morrer é daquelas coisas que afecta decisivamente o bem estar.
Expandindo o raciocínio, a obsessão com a competitividade ignora que os ganhos, em geral, na produtividade - e não só aqueles que ocorrem no sector exportador - se reflectem em ganhos de bem-estar. A falta de segurança na construção civil é apenas um aspecto de uma construção civil de má qualidade, que faz com que as pessoas paguem muito para viverem em casas mal construídas. Aumentar esta produtividade é aumentar o bem estar das pessoas, ainda que o PIB não meça isso.
Quando algum dos gurus da nossa economia vos falar em produtividade em vez de, passando por sofisticado, competitividade, prestem atenção. É um indício de que ele sabe do que está a falar.

*Título descaradamente roubado a Paul Krugman.


 
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